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SAF: O Combustível de Avião Feito do Campo que o Brasil Quer Liderar no Mundo

SAF O Combustível de Avião Feito do Campo que o Brasil Quer Liderar no Mundo

 

A soja que você planta em Mato Grosso pode abastecer um avião em São Paulo. Não é ficção — é o que a Petrobras já faz desde dezembro de 2025, com as primeiras entregas de SAF 100% produzido no Brasil no Aeroporto do Galeão. O combustível sustentável de aviação, ou SAF, tem tudo para transformar o setor aéreo, conectando o campo brasileiro diretamente à aviação comercial.

O Brasil projeta produzir 900 mil toneladas de SAF por ano, o equivalente a 75% de toda a capacidade da América do Sul, com matéria-prima que vem do campo: óleo de soja, sebo bovino, etanol de cana e milho. Neste artigo, explicamos o que é o SAF, por que o campo é o coração dessa revolução e o que isso representa em termos de oportunidade para o produtor rural brasileiro.

O que Você Precisa Saber

  • O SAF é quimicamente idêntico ao querosene convencional, podendo ser usado sem mudanças em aeronaves ou aeroportos.
  • O Brasil tem vantagem única por sua produção em larga escala de soja, cana e milho, principais matérias-primas do SAF.
  • A Petrobras lidera projetos estratégicos, como o maior ETJ da América Latina na Refinaria de Paulínia.
  • A Lei do Combustível do Futuro obriga companhias aéreas brasileiras a usar SAF a partir de 2027, acelerando o mercado.
  • Embora o SAF ainda represente apenas 0,3% do consumo global, sua demanda deve crescer fortemente com regulamentações e investimentos.

O que é O SAF — E por que Ele Não Muda Nada no Avião mas Muda Tudo no Planeta

SAF, ou Combustível Sustentável de Aviação, é um combustível produzido a partir de fontes renováveis como óleo de soja, sebo bovino e etanol, mas que mantém a mesma composição química do querosene tradicional. Isso significa que ele pode ser misturado ao combustível convencional sem que os aviões ou aeroportos precisem de adaptações. Essa compatibilidade é essencial para a adoção rápida do produto.

O diferencial do SAF está na redução das emissões de carbono. De acordo com dados da Petrobras, o uso desse combustível pode reduzir as emissões de CO₂ em até 87% durante seu ciclo de vida, em comparação ao querosene fóssil. Como a aviação representa cerca de 2,5% das emissões globais, o SAF é a principal alternativa para descarbonizar um setor que ainda não tem substitutos elétricos ou de hidrogênio viáveis em escala.

“O que separa o SAF do querosene convencional não é a aeronave, mas a cadeia de produção sustentável que começa no campo brasileiro.”

Apesar do crescimento acelerado, o mercado global de SAF ainda é pequeno: cresceu de 600 milhões para 1,3 bilhão de litros entre 2023 e 2024, alcançando apenas 0,3% do consumo global de querosene. A expectativa é que esse percentual aumente com regulamentações como o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação.

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Por que o Brasil Tem Tudo para Liderar o SAF Global — E Já Está Fazendo Isso

O Brasil reúne condições únicas para se tornar líder mundial na produção de SAF. É o maior produtor global de soja e cana-de-açúcar, além de estar entre os maiores produtores de milho, que também serve como matéria-prima para o combustível. Nenhum país combina essa diversidade e escala de insumos renováveis.

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Além disso, o país acumula meio século de experiência em biocombustíveis, principalmente em etanol, com uma indústria sucroenergética altamente eficiente. Essa expertise facilita a transição para o SAF, especialmente em rotas como a Ethanol-to-Jet (ETJ), que converte etanol diretamente em combustível para aviação.

O reconhecimento da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), órgão ligado à ONU, reforça a credibilidade do Brasil no cenário internacional. A aprovação do multicultivo brasileiro para SAF abre portas para o produto nacional em mercados rigorosos. Entre 2026 e 2029, o Brasil deve responder por 75% do SAF da América do Sul, com 900 mil toneladas anuais projetadas (CNT).

A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/24) já está em vigor, criando metas crescentes de incorporação de SAF: 1% em 2027, chegando até 10% em 2037. Isso cria um ambiente regulatório seguro para investimentos e para a expansão do setor.

Soja, Boi, Cana, Milho e Macaúba: O que o Campo Brasileiro Fornece para o SAF

Soja, Boi, Cana, Milho e Macaúba: O que o Campo Brasileiro Fornece para o SAF

  • Óleo de soja: Principal insumo da rota HEFA, usada pela Petrobras nas refinarias de Cubatão (RPBC) e Paulínia (REPLAN). O Brasil é o maior produtor mundial de soja, com escala suficiente para abastecer essa cadeia.
  • Sebo bovino: Subproduto do abate de gado, o sebo antes pouco valorizado agora gera SAF de alta qualidade na rota HEFA, beneficiando frigoríficos e pecuaristas.
  • Etanol de cana e milho: A rota ETJ (Ethanol-to-Jet) converte etanol diretamente em combustível para aviões. O projeto da Petrobras na REPLAN é o maior da América Latina, com capacidade para 10 mil barris por dia. O etanol de milho, em expansão, complementa a matéria-prima.
  • Macaúba e oleaginosas nativas: Palma nativa do Cerrado e Mata Atlântica, a macaúba tem alta produtividade, baixo custo e não compete com alimentos, sendo ideal para áreas degradadas e para atender exigências ambientais como a EUDR.

Na prática, o produtor rural não é só um observador: ele é peça-chave nessa cadeia. Compreender como sua produção se conecta ao combustível que voa é fundamental para aproveitar as oportunidades que o SAF oferece.

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Os Projetos que Vão Colocar o Brasil no Mapa Global do SAF — E Quando Entram em Operação

  • Petrobras REDUC (Duque de Caxias/RJ): A primeira refinaria brasileira a produzir SAF certificado pela ICAO, já entregou 3 mil m³ ao Aeroporto do Galeão em dezembro de 2025. Usa coprocessamento com óleo de milho para até 1,2% de matéria-prima renovável.
  • Petrobras REPLAN (Paulínia/SP) — projeto ETJ: O maior da América Latina, produz até 10 mil barris por dia de SAF a partir do etanol. Tecnologia licenciada pela Honeywell UOP, previsão de início em 2026.
  • Petrobras RPBC (Cubatão/SP) — projeto HEFA: Combina óleo de soja e sebo bovino para produzir 15 mil barris por dia de SAF e diesel renovável. Investimento de US$ 1,5 bilhão, operação prevista para após 2029.
  • Companhias aéreas Latam e Azul: Antecipam o uso do SAF em seus voos antes da obrigatoriedade de 2027, com voos já abastecidos com até 30% de SAF.
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O que o SAF Significa na Prática para o Produtor de Soja, Cana, Milho e Gado

O que o SAF Significa na Prática para o Produtor de Soja, Cana, Milho e Gado

A introdução do SAF cria uma nova demanda estratégica para commodities como soja, etanol e sebo bovino. Isso pode elevar os preços ao longo do tempo e abrir novas fontes de receita para produtores rurais.

Produtores que conseguirem comprovar práticas sustentáveis, como o cadastro ambiental rural (CAR) regularizado e ausência de desmatamento, terão vantagem para entrar na cadeia de fornecimento do SAF, potencialmente com prêmio de preço pela rastreabilidade.

A macaúba surge como uma oportunidade de diversificação para produtores do Cerrado e Mata Atlântica, sobretudo em áreas degradadas, sem competir com alimentos. O etanol de milho também ganha destaque como matéria-prima alternativa, especialmente nas regiões onde a cultura cresce aceleradamente, como Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul.

Além disso, a produção de SAF gera créditos de carbono pelo programa CORSIA, que podem ser parcialmente repassados ao produtor que comprovar sustentabilidade. Embora ainda não haja venda direta ao produtor, a cadeia tende a se aproximar conforme o setor cresce.

O SAF Não é Perfeito — Os Desafios que o Brasil Precisa Superar para Liderar de Fato

  • Custo de produção elevado: Atualmente, o SAF custa entre 2 e 5 vezes mais que o querosene convencional, pressionando passagens aéreas e demandando subsídios ou incentivos para ampliar escala e reduzir preços.
  • Mercado inicial pequeno: Com apenas 0,3% do consumo global, a expansão depende de regulamentação e investimento contínuo, e retornos financeiros são de médio a longo prazo.
  • Competição com alimentos: A produção de soja e etanol para combustível gera debate sobre segurança alimentar. Oleaginosas nativas como a macaúba são resposta promissora, mas ainda carecem de escala significativa.
  • Necessidade de parcerias público-privadas: Os R$ 120 bilhões em propostas ao BNDES/Finep mostram o interesse privado, mas é fundamental consolidar modelos de financiamento e segurança regulatória para viabilizar projetos menores.
  • Meta agressiva em prazo curto: A meta de produzir 20% da demanda brasileira de querosene com SAF até 2035 exige que projetos saiam do papel rapidamente e que a cadeia de suprimentos seja estruturada com eficiência.
“O SAF é uma revolução em curso, mas a liderança brasileira depende da superação coordenada de desafios técnicos, econômicos e regulatórios.”

O Campo Brasileiro Pode Ser o Coração Energético da Aviação Mundial — Mas Depende de Cada Elo da Cadeia

O SAF já não é uma promessa distante: a Petrobras entrega combustível certificado, a legislação nacional cria metas claras, e companhias aéreas antecipam seu uso. O campo brasileiro é o fornecedor estratégico das matérias-primas que sustentam essa transformação.

Para o produtor rural, a mensagem é clara: regularizar o CAR, comprovar a sustentabilidade da produção e estar alinhado com a legislação ambiental, como a EUDR, é preparar-se para fazer parte da cadeia do combustível sustentável de aviação. Essa ligação entre campo e avião amplia as oportunidades e fortalece o papel do Brasil na aviação sustentável mundial.

FAQ

O que é SAF em Português?

SAF significa Combustível Sustentável de Aviação, que é um combustível produzido a partir de fontes renováveis, como óleo vegetal e etanol, mas que é quimicamente igual ao querosene tradicional. Isso permite seu uso em aviões sem necessidade de modificações. O objetivo principal do SAF é reduzir significativamente as emissões de carbono da aviação, um dos setores mais difíceis de descarbonizar atualmente.

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O SAF é Misturado com o Combustível Normal?

Sim, o SAF é geralmente misturado ao querosene convencional em proporções que variam conforme a regulamentação e a capacidade técnica das refinarias. Essa mistura é feita para garantir compatibilidade com as aeronaves e infraestrutura aeroportuária, mantendo a segurança e desempenho dos voos. A mistura pode variar de 1% a 50%, dependendo do mercado e da disponibilidade do combustível sustentável.

O Produtor de Soja Pode Vender Diretamente para o SAF?

Atualmente, o produtor de soja não vende diretamente para a cadeia do SAF. Em geral, ele comercializa a matéria-prima para traders ou usinas, que processam e entregam para as refinarias. No entanto, à medida que o mercado cresce e a rastreabilidade se torna mais importante, produtores que comprovarem práticas sustentáveis poderão ter acesso a benefícios e até preços diferenciados dentro dessa cadeia.

O que é A Lei do Combustível do Futuro?

A Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/24) é a legislação brasileira que estabelece metas para o uso obrigatório de combustíveis sustentáveis na aviação a partir de 2027. Ela cria o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV) e define percentuais crescentes de incorporação de SAF, estimulando investimentos e garantindo um mercado regulado para esse combustível no Brasil.

O que São CORSIA e ICAO?

CORSIA (Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation) é um programa internacional da Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) que regula a compensação de emissões de carbono na aviação global. O ICAO é a agência da ONU responsável pela aviação civil. O CORSIA incentiva o uso do SAF, gerando créditos de carbono que podem ser comercializados para compensar emissões e promover voos mais sustentáveis.